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Sustentabilidade

Os desafios de sustentabilidade para a indústria de bebidas e alimentos: o caso Coca-Cola

As empresas de alimentos e bebidas estão no olho do furação do escrutínio público, especialmente a partir da crise de obesidade que se transformou em verdadeira epidemia nos últimos anos em vários países do mundo, Brasil incluído. Elas produzem produtos – snacks, salgadinhos, refrigerantes, sucos, energéticos – que são, no limite, totalmente dispensáveis para a alimentação humana. A maioria destes produtos, senão todos, situam-se, portanto, em um arco de necessidades humanas mais próximo da satisfação do prazer sensorial do que da necessidade física por alimentos e líquidos para a manutenção do corpo.

É neste contexto que empresas como Coca-Cola, Pepsico, Mondelez (ex-Kraft Foods), Nestlé, entre outras, são postas contra a parede pelo seu papel intrínseco na epidemia mundial de obesidade, ao oferecer produtos industrializados com sódio, açúcar e outros componentes químicos e pela publicidade, que acaba chegando de uma forma ou outra até as crianças, estimulando mais consumo dos seus produtos.

Na semana passado, junto com outros blogueiros, tive a oportunidade de tocar nestes temas em uma teleconferência com Marco Simões, Vice-Presidente de Comunicação e Sustentabilidade da Coca-Cola Brasil, durante uma visita patrocinada pela empresa à fábrica SOLAR, localizada em Maceió (AL).

Epidemia de obesidade

A Coca-Cola e, na prática, todas as empresas do setor, reconhecem que tem um papel relevante tanto no problema, como na solução, da epidemia de obesidade. O que Marco Simões defendeu, e estou de acordo com ele, é que este tema não pode ser centrado unicamente nas indústrias do setor. É uma questão mais complexa que necessariamente envolve outros atores, desde governos, por sua capacidade e responsabilidade por gerar e implantar políticas públicas, até os pais e escolas, por sua influência direta nas decisões cotidianas de consumo das crianças e adolescentes.

Grupo de blogueiros em teleconferência com VP de Sustentabilidade durante visita à fábrica da Coca-Cola em Maceió (AL). Foto: Renato Guimaraes

Grupo de blogueiros em teleconferência com VP de Sustentabilidade durante visita à fábrica da Coca-Cola em Maceió (AL). Foto: Renato Guimaraes

É interesse, por exemplo, notar que no Brasil, segundo pesquisa da Universidade de São Paulo, cerca de 75% do consumo de sódio vem do uso direto pelas pessoas de sal e condimentos à base do produto. É a famosa pitadinha de sal onipresente em nossas mesas e da qual eu reconheço que sou adepto. Os alimentos industrializadas à base de sal seriam responsáveis por aproximadamente 19%, o que não é pouco, claro.

Do ponto de vista da indústria, a pressão dos consumidores e marcos legais mais restritivos estão obrigando-as a investir mais em pesquisa e desenvolvimento para buscar soluções que diminuam o uso de sódio e açúcar, sem afetar o gosto original do produto. Este ponto é interessante porque sabor e consistência dos produtos são parte inerente da experiência de consumo. Não é sem razão que se investe tanto em produtos dietéticos que mantenham o máximo possível de proximidade com o sabor original.

Segundo Marco Simões, o compromisso da Coca-Cola é o de oferecer um portfólio variado de produtos com baixa caloria. Atualmente 23% dos produtos  oferecidos ao mercado estão nesta faixa. Ao mesmo tempo, a empresa procura apoiar ações voltadas para estimular a saída das pessoas do sedentarismo, responsável também  pala crise de obesidade atual. Uma pesquisa apresentada na revista médica Lancet mostra que o sedentarismo seria responsável por 13,2% das mortes no Brasil. O IBGE revela, por sua vez, que cerca de 80% dos brasileiros são sedentários.

Uma combinação de produtos com menor uso de açúcar e sódio, ação direta de pais e escolas no oferecimento de opções de alimentos e bebidas mais saudáveis e o combate ao sedentarismo são, portanto, práticas que precisam ser combinadas para se ter impacto concreto e permanente na luta contra a epidemia de obesidade. Esta combinação exige uma ação “multi-stakeholder”, ou seja, todo mundo tem de entrar no jogo: empresas, governos, mídia, profissionais de saúde, escolas e consumidores.

Publicidade, água e embalagens

O tema da publicidade para o público infantil é chave, neste processo. Aliás, este  é um tema quente agora mesmo no Congresso Nacional com o avanço lento, mas gradual, do projeto de lei 5921/01, que proíbe a propaganda voltada para crianças até 12 anos na televisão, rádio e internet entre 5h e 22h. Marco Simões garante que a política da Coca-Cola é de zero propaganda voltada para esta faixa etária.

Mas creio que o desafio para as empresas é o de garantir que suas cadeias de valor, especialmente distribuidores locais, respeitem esta política e não encontrem formas de empurrar os produtos e sua propaganda nas escolas e pequenos comércios.

Dois outros temas importantes do ponto de vista de sustentabilidade tem a ver com o manejo de recursos naturais, especialmente da água, matéria-prima fundamental dos refrigerantes, e com a destinação das embalagens, como latinhas e as garrafas de vidro e à base de PET.

Com relação às embalagens, Marco Simões destacou os investimentos da empresa na criação de um círculo virtuoso de coleta, reciclagem e reuso de latas e garrafas de PET, incluindo um trabalho muito próximo com as cooperativas de coletores e recicladores de resíduos. No caso das latas de alumínio o reaproveitamento já beira o 100%. No caso das garrafas de PET, está ao redor de 57%, mas a meta é também chegar aos 100% nos próximos anos. Há um desafio de aumentar o valor agregado da PET para estimular sua coleta por parte dos coletores. Para isso a empresa está apoiando a criação de uma cadeia de valor para este produto, por exemplo com o estímulo ao uso da fibra de PET na indústria de confecção.

No caso da água, a meta é a de investir em tecnologias para racionalizar e minimizar ao máximo o seu uso. No Brasil, a Coca-Cola adquire a água usada nos processos fabris a partir dos fornecedores públicos. A meta da empresa é a de usar apenas 1,5 litro de água para cada litro de bebida produzida.  Neste sentido, a fábrica da empresa mais eficiente no mundo é a Jundiaí, a qual usa apenas 1,35 litros de água em média por litro de bebida produzida. Água, diga-se de passagem, usada não apenas na composição da bebida, mas também em todos os outros processos industriais.

Visita à Fábrica SOLAR

Vista aérea da fábrica SOLAR. Foto: arquivo Coca-Cola.

Vista aérea da fábrica SOLAR. Foto: arquivo Coca-Cola.

Depois da teleconferência com Marco Simões, o grupo de blogueiros foi conhecer o processo de produção da fábrica SOLAR, construída para ser uma referência de sustentabilidade no Brasil. Para isso, sua construção seguiu todos os parâmetros do LEED (Leadership in Energy and Environmental Design), um sistema internacional de certificação e orientação ambiental para edificações, utilizado em 143 países.

A produção é totalmente automatizada e há pouco contato humano direto com o produto, além de uma profusão de pontos de controle. As garrafas vazias são inspecionadas eletronicamente antes de serem preenchidas pela bebida, e qualquer imperfeição é motivo para sua separação.

Com tudo isso, é muitíssimo difícil de acreditar nas histórias que apontam para o encontro de objetos estranhos (o mais recente foi cabeça de rato) dentro das garrafas ou latas de bebida. Obviamente erros industriais podem acontecer, mas vendo a quantidade de tecnologia aplicada fica claro que a aposta é no erro zero.

Mesmo porque as indústrias de alimentos e bebidas lidam o tempo todo com o valor intangível da confiança. Ou seja, como consumidores confiamos que elas nos oferecem produtos absolutamente seguros. A quebra desta confiança básica pode ser desastrosa para a reputação da empresa e nenhuma, em sã consciência, permitiria algo assim.

Em todo caso, acho importante a abertura da Coca-Cola para dialogar  esclarecer para o público os diversos aspectos do negócio. A empresa está abrindo, por exemplo, suas fábricas para visita dos consumidores. Para isso basta se cadastrar no site da empresa ou ligar para o número 0800-021-2121.

No site da empresa tem também uma área que sempre consumo visitar na qual se procura desmentir os boates sobre o produto, como o de que a Coca-Cola seria capaz de dissolver até ossos. Vale uma visita.

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Sobre Renato Guimaraes

Sou brasileiro, carioca, flamenguista e jornalista. Gosto de praia, ler (de tudo), cinema, música, boa comida (especialmente japonesa, tailandesa, peruana e mineira), cachaça (especialmente as mineiras), um bom papo com os amigos e com gente interessante. Tenho interesse em assuntos ligados à sustentabilidade, redes, internet, movimentos sociais, comunicação e relações internacionais. Sou Diretor de Engajamento do Greenpeace Brasil. Twitter: @renatoguimaraes

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